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riscos_e_rabiscos

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Hoje há Festa no Alentejo!

Este post é dedicado à minha amiga S., ao primo J. e ao primo N., companheiros de diversão numa terra onde impera o calor e cuja única animação é a tradicional festa anual que se realiza – caso o padre não lhe mude a data – a 15 de Agosto.
 
A festa é igual a todas as outras de tantas terras: touradas (com fartura), quermesses, bailes e procissões.
Mas para nós era um motivo de reencontro, de diversão e até para alguns, de rédea solta.
 
O calor, em Agosto no Alentejo, arde na pele. Ou nos levantamos muito cedo e podemos andar na rua até às 10.30-11 horas, o que é pouco provável em época de festa, ou então só podemos sair ao fim da tarde.
 
Mas nós íamos sempre tomar o nosso café à taberna com menos mau aspecto da terra e a que nós chamamos de café. Claro que quando as meninas de Lisboa lá entravam, éramos observadas de alto a baixo e as línguas mais ferinas faziam comentários toscos.
Acontece que nem sempre ficávamos ali pela terra. Mesmo com um sol abrasador a esturricar os miolos, lá íamos nós de carro a outra terra qualquer tomar café. Nem que fosse para mudar de “calor”.
 
À noite encontrávamo-nos sempre. Geralmente íamos buscar-nos uns aos outros ou então encontrávamo-nos no recinto da festa à hora marcada. Íamos todos aperaltados não só para impressionar alguém que estivesse “debaixo de olho” mas também porque as cuscas da terra reparavam nas nossas fatiotas.
Depois, passávamos a noite inteira para cima e para baixo: entre uma garrafa de água e outra, ora íamos ao parque – onde o pessoal ia fumar um cigarrinho às escondidas ou onde se marcavam encontros furtivos com namorados – ora íamos até ao recinto de baile.
O primo N. era o par preferido das miúdas. Era o puto mais giro do baile e não dava vazão às fãs.
 
As histórias passadas nesta terra são imensas. Eu costumava ir dormir a casa da M. que costumava marcar encontros nocturnos com os namorados no quarto dela. Nunca mais me esqueço de um que se passou no Natal. À hora do encontro marcado, ela precisou de ir ao wc e foi mesmo nessa altura que o namorado resolveu bater à janela (sim, eles entravam pela janela!). Eu congelei. Ele continuava a bater insistentemente à janela e eu estava cheia de medo que alguém acordasse. Fui a correr chamá-la e quando regressávamos ao quarto, tropeçámos na árvore de Natal que caiu fazendo um grande estardalhaço. Glup! Não sei como é que ninguém acordou…
 
Houve ainda a história do homem sem uma perna. Esta foi passada no parque que fica numa ponta da aldeia. E a partir daqui é escuridão. Houve alguém que teimava que estava a ver um homem sem uma perna a caminhar normalmente a vir na sua direcção. Mas só ela é que o via, mais ninguém. Para ajudar à festa, começámos a ouvir um javali. Se o coração já estava apertado com a visão do “homem sem perna”, com o javali a rondar-nos a coisa começou a ficar mais assustadora. Acabámos por ir para casa cheios de medo.
 
Passaram alguns anos e o pessoal começou a ter namorado ou namorada a sério. O pior é que os parceiros não eram par para nós. Não gostavam de alinhar nas brincadeiras, mostravam sempre má cara para tudo e nunca tinham vontade de nada. E isto acabou por estragar a nossa diversão em terras do Alentejo.
 
A última vez que me lembro de estarmos no Alentejo juntos, já todos estavam comprometidos. A S. o J. e o N. são primos e ficavam todos na mesma casa – casa esta que tinha um poste da luz à porta sempre cheio de morcegos esvoaçantes! Argh! -, só eu é que era intrusa.
Nessa última noite, estávamos tão divertidos que resolvemos ficar mais um pouco no quintal deles a beber “Juquim Danieli” (Jack Daniels). Claro que a namorada do J. e o namorado da S., que nunca alinhavam em nada, foram para a cama. Lembraste S.? Bons velhos tempos.
 
Agora já nada é igual. Já não vamos à festa e raramente vamos ao Alentejo. Uns casaram, outros divorciaram-se, outros foram pais e outros estão à espera de serem pedidos em casamento. As vidas modificaram-se, as pessoas modificaram-se e as circunstâncias da vida também.
Mas pelo menos fica a memória de momentos tão felizes vividos em conjunto.
A S. será sempre uma irmã para mim, continuo a gostar muito do N. e do J. que eu considerava o meu melhor amigo. Afastou-se por um mal-entendido da parte dele e nunca resolvido. As pessoas mudam mesmo…
 

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